domingo, 18 de março de 2012

Brasil, Brasis

Por Itami Campos


 A formação e o povoamento do Brasil tiveram no litoral a sua base, com cidades se constituindo e com governos e administração se instalando. Durante séculos, o Brasil era representado pelo seu litoral, a excessão de Minas Gerais, com sua riqueza em ouro. O interior, isolado e longe, foi sendo ocupado, tendo o gado como elemento principal de ocupação territorial, também como fonte de renda e de empregos. Não é para menos, pois o 'ciclo do couro' marcaram as culturas que se estabeleceram. As fazendas se formaram e se constituíram em latifúndios com suas 'casas grandes', fundando na sequência vilas e cidades como extensão de seus domínios.
 Daí a caracterização dos "dois Brasis" - o do litoral, rico, civilizado, conectado com a Europa; e o do interior, do sertão, pobre e inculto, sendo muitas as diferenças entre eles. As diferenças geraram estereótipos nas figuras do 'jeca-tatu' do matuto, do peão e tantos outros tipos que o morador do interior passou a ter. O interior, distante e isolado, sobrevivia nas agruras e dificuldades do mundo rural.
 No pós Segunda Guerra, especialmente a partir dos anos 1960, as mudanças se aceleraram. JK. Industrialização. Brasília. Estradas. Integração Nacional. Assim, o interior foi ganhando vida própria. O Brasil tendeu a mudar. As relações capitalistas avançaram no campo, concentrando terras e riquezas, também expandindo a qualidade da produção, conquistando novos mercados e fortalecendo-se como agroindústrias. Teve igualmente como resultado a expulsão de moradores do campo, obrigados a migrar para as cidades e suas periferias. O Brasil se tornou um país de população urbana, mas os problemas se avolumaram.
 As mudanças aconteceram não somente pelas transformações no campo, muito mais pelo avanços tecnológicos. Meios de comunicação; telefones, celulares; televisão, mídias, internet, computador; avião, ônibus, trem, automóveis. O ritmo da vida tornou-se intenso. O mundo encolheu. A economia mudou, mundializando-se num intenso processo de redefinições e exclusões. Todo esse processo de mudanças impactou, interferindo nos espaços, nas pessoas, populações e regiões brasileiras com resultados diversos.
 Difícil enumerar os responsáveis por essa construção. Houve muito de aventureirismo, de patriotismo e espirito público, de empreendedorismo, também pessoas comuns que, num processo de longa duração, demarcaram espaços, fazendo acontecer o trivial e o inusitado. Alguns analistas mostram o Estado se estruturando antes da nação brasileira, resultando numa forma de dominação política e no atraso da organização do povo. A história oficial desconhece esse processo, ou pelo menos, não destaca os diversos atores que foram tecendo a rede de relações, botando os piquetes que demarcaram a diversidade, nas condições possíveis. O brasileiro continua sua caminhada.
 Interessante que os tempos parecem outros. Não são mais 'dois brasis' - muitos outros se apresentam, numa riqueza de possibilidades inimagináveis. No Norte e no Nordeste, no Centro Oeste, no Leste e no Sul são muitas as alternativas que dispõem o morador, o empresário. Neste sentido, existe força quando a população acredita ser possível mudar, construir, quando percebe a seriedade e consistência do projeto. A riqueza também se apresenta na forma como a população se dispõe / se mobiliza, quando percebe a seriedade do projeto.
 O Brasil tem merecido crédito internacional, não por políticas de governo, mais por uma construção coletiva de um povo que tem acreditado no seu potencial. De uma terra em que os descobridores teriam dito - "em se plantando tudo dá". Embora com problemas de escolaridade e de desenvolvimento tecnológico, o país tem a maior área agricultável do mundo, com ampla possibilidade de ampliar a fronteira agrícola. Com potencialidades em outros setores, especialmente no desenvolvimento de energias alternativas e limpas. Ufanismo pode ser, mas devíamos acreditar mais no nosso taco!


Itami Campos é cientista político, pró-reitor e Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão da UniEvangélica

Artigo publicado no jornal O Popular.

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