sábado, 7 de abril de 2012

Césio 137 - Goiânia, esquecimento e descaso.

Por Sagran Carvalho.



Em 13 de setembro de 1987, ocorreu no Brasil o segundo maior acidente radioativo da história à época, pois ano passado o desastre em Fukushima foi de proporção bem maior ao de Goiânia e talvez também ao de Chernobyl.
Porém, como somos um país que tende a esquecer seu passado, resolvi hoje relembrar aquele acidente ocorrido em Goiânia nos idos dos anos 80, que causou algumas mortes e enorme comoção nacional, mas que hoje é pouco lembrado pela sociedade e ignorado pela justiça.
Na data acima, Roberto dos Santos e Wagner Mota, catadores de lixo, encontram um aparelho de radioterapia em um hospital abandonado na região central de Goiânia ( Instituto Goiano da Radioterapia ), que julgaram ser sucata. Os dois então desmontaram o aparelho que era revestido de chumbo e aço, e se depararam com uma cápsula que continha um pó branco, que no escuro emitia um brilho azulado através de uma pequena janela feita de Iridio. Tratava-se de Cloreto de Césio, um sal obtido a partir do radioisótopo 137 do elemento químico Césio. Ao arrombarem a proteção de chumbo e aço que revestia a cápsula, deu-se início a contaminação que em 16 dias marcaram a História de Goiânia e do Brasil.
Os catadores não tinham a menor ideia do que se tratava e dos riscos a que foram expostos. Na verdade, acharam o brilho azulado do pó branco muito belo.
Os dois catadores venderam a "sucata" a um ferro velho também na região central da cidade de propriedade de Devair Ferreira, no dia 18.
No ferro velho a cápsula foi aberta, para que se reaproveitasse o chumbo. Nisto, foram  expostos diretamente ao ambiente 19,26 gramas de Cloreto de Césio.
Devair, assim como Roberto e Wagner, ficou encantado com o pó que brilhava no escuro, e o leva para casa  no dia 19, e  mostrando-o  à esposa Maria Gabriela. Também o distribuiu entre familiares e amigos entre os dias 19 e 21. O irmão Ivo Ferreira, leva uma pequena quantidade para casa, onde sua filha Leide das Neves o ingere junto com pão. A menina seria considerada a pessoa com maior concentração de radioatividade da história.
Neste período todas as pessoas que tiveram algum contato com o pó começam a apresentar tonturas, náuseas, vômitos e diarréia. Todos procuram as drogarias da cidade em busca de medicamento para os sintomas, outros se dirigiram a postos de saúde sendo encaminhados a hospitais, porém sem terem qualquer idéia que o pó branco fosse o responsável pelos sintomas que sentiam. Os profissionais da saúde, que efetuaram os atendimentos, acreditaram que tratava-se de alguma doença contagiosa desconhecida.
No dia 26, Odesson Ferreira, irmão também de Devair tem contato com o pó branco. Odesson era motorista de ônibus, e nisto, foi o responsável pela contaminação de centenas de pessoas na cidade.
Em 29 de setembro, a esposa de Devair, Maria Gabriela, desconfia que a causa dos males esteja ligada ao pó branco, e juntamente com um funcionário do ferro velho, levam a cápsula a Vigilância Sanitária do município. O físico Walter Mendes é chamado e aí descobre-se que havia uma substância radioativa na cápsula. Walter foi até a Rua 57, onde o aparelho de radioterapia começou a ser desmontado e constatou que os níveis de radiação no local e imediações estavam bem acima do recomendável. Com isto, ele impediu que a cápsula fosse jogada no Rio Meia Ponte pelos bombeiros, e dá-se o alerta de contaminação por material radioativo.
Os técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear ( CNEN ) chegam a Goiânia no dia 30. Centenas de pessoas que apresentavam os sintomas e que de alguma forma tiveram contato com o material radioativo foram isoladas em quarentena no Estádio Olímpico, no centro da capital, onde passaram por uma triagem para avaliação do grau de contaminação.
Começa-se então o trabalho de descontaminação, sendo a primeira medida a lavagem de todas as roupas dos contaminados com água e sabão, para logo em seguida, todos tomarem um quelante denominado "Azul da Prússia". Esta substância elimina os efeitos da radiação, fazendo com que o Césio seja expelido do organismo através das fezes e urina.

O que restou do terreno na Rua 57, onde a cápsula de Césio 137 começou a ser desmontada
Primeiras mortes:
Maria Gabriela, esposa do dono do ferro velho Devair Ferreira, faleceu no dia 23 de outubro, no Hospital Marcilio Dias no Rio de Janeiro, para onde havia sido transferida, sendo a primeira vitima fatal do episódio. A menina Leide das Neves Ferreira, que havia ingerido o Césio, morreu no mesmo dia apenas duas horas após sua tia. A pequena Leide foi sepultada em um caixão de chumbo lacrado, o que demonstra o seu nível de contaminação.
Devair, seu irmão Ivo e dois funcionários do ferro velho também vieram a óbito logo em seguida.
Descontaminação:
Os locais atingidos pela radiação sofreram um trabalho de descontaminação que gerou cerca de 6000 toneladas de lixo radioativo, que foram confinados em 1200 caixas, 2900 tambores e 14 contêineres revestidos por concreto e aço, alocados em um depósito construído em Abadia de Goiás, onde permanecerão por 180 anos.
Punição e responsabilidades:

Área que abrigava o ferro-velho da Rua 26-A
Em 1996, foram condenados pela justiça por homicídio culposo três sócios do antigo Instituto Goiano de Radioterapia, cuja pena de três anos e dois meses de prisão foi convertida em prestação de serviços a comunidade.
As vitimas sobreviventes da contaminação reclamam da omissão dos governos quanto a assistência que ainda necessitam, tanto de medicamentos quanto de atendimento. Fundaram a Associação das Vítimas  contaminadas do Césio 137, que luta pelos direitos dos contaminados presidida pelo irmão de Devair Fernandes, o motorista Odesson Alves Ferreira.
Abaixo um relato do mesmo, que dá bem a dimensão do ocorrido:
“A única vez que vi o césio foi em 26 de setembro. Meu irmão me mostrou a pedra e perguntou se ela poderia ser usada para fazer um anel. Peguei um pedaço menor que um grão de arroz e esfreguei na palma da mão. Como era dia, não havia nenhum brilho. Ela mais parecia um pedaço de cimento. Oito dias depois, minhas mãos começaram a coçar e incharam. Sentia tonteiras e náuseas. Um dia, a polícia chegou a nossa rua e começou a isolar as pessoas no estádio Olímpico. Só aí descobri que aquela pedra era radioativa. Sabia o que era isso – o acidente de Chernobyl tinha acontecido um ano antes. A população entrou em pânico. Todos achavam que estava acontecendo o mesmo em Goiânia. Fui a última vítima a ser isolada. Vi meus irmãos entrarem no avião e serem enviados ao Rio de Janeiro para fazerem um tratamento intensivo. Quando saímos do hospital, as pessoas nos tratavam como se tivéssemos uma doença contagiosa. As vítimas do césio eram apedrejadas. Tive que mudar meus filhos de escola duas vezes. Hoje, mesmo que quisesse esquecer o que aconteceu, não me deixariam. Sempre tem alguém que me lembra de 20 anos atrás.”

Centro de Cultura e Convenções, erguido sobre as ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia
Só mais um adendo, para fechar este post: O acidente radioativo em Goiânia foi classificado como nível 5 na Escala Internacional de Acidentes Nucleares, sendo o maior ocorrido fora de uma Usina Nuclear.






















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