sábado, 2 de junho de 2012

Síria de hoje é o Líbano de ontem


OPINIÃO

Visão do Correio
 
 
Mais de um ano de enfrentamentos e o saldo que ultrapassa 13 mil mortos não autorizam olhar a Síria com romantismo. A Primavera Árabe, que levou o povo às praças e derrubou ditadores aparentemente eternos, está longe da realidade de Damasco. Zine El Abidine Ben Ali e Hosni Mubarak caíram como fruta madura cai do galho — praticamente sem derramamento de sangue. Há poucos dias a terra dos faraós promoveu as primeiras eleições democráticas em mais de 5 mil anos de história.
O sucesso das duas experiências criou falsas expectativas. Deu a ilusão de que a facilidade seria a marca do movimento que se espalhava como rastilho de pólvora. A Líbia funcionou como divisor de águas. Surpreendentemente, Muamar Kadafi resistiu à tentativa de golpe. Sangrenta guerra civil dividiu o país. Os confrontos abriram caminho para a intervenção militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que, embora vista com reserva por alguns governos, não recebeu veto de nenhuma grande potência.
A queda do ditador serviu de precedente para a guinada que se observa na Síria. Apesar da indignação mundial diante do massacre que encharca o solo da nação árabe com sangue de crianças e mulheres, Bashar Assad não dá sinais de fraqueza. Chama os opositores de terroristas e, sem levar em conta a diferença de forças, promove verdadeiro genocídio. Mais: demonstra indiferença ou até descaso ante os esforços da comunidade internacional de obter um cessar-fogo tendo à frente Kofi Annan, ex-secretário-geral da ONU.
Há uma semana, Houla serviu de palco para outro massacre. Segundo grupos rebeldes, mais de 100 civis perderam a vida — na maioria crianças e mulheres. Nos dias seguintes, a matança prosseguiu. Alemanha, Austrália, Bulgária, Canadá, Espanha, Estados Unidos, França, Itália e Reino Unido reagiram diplomaticamente. Expulsaram os embaixadores e funcionários sírios do seu território. O Brasil tomou atitude mais moderada. Manifestou preocupação com os atos de violência contra o povo, que classificou de “inaceitáveis”.
A evolução dos confrontos acende sinal vermelho. Prova que a revolta síria não se resolve com canetada da ONU. Conflito complexo, envolve interesses além-fronteira. De um lado, o equilíbrio regional Irã-Arábia Saudita. De outro, implicações com Líbano, Israel e Irã. A solução não passa por medidas emocionais. Antes de qualquer intervenção, impõe-se avaliar o quadro com frieza para evitar que Damasco se transforme na Beirute que enfrentou 15 anos de guerra civil. É preciso colocar o combustível da emoção a serviço da razão. A racionalidade e o bom-senso têm de dar-se as mãos para encontrar a saída do labirinto.

Correio Braziliense.

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