terça-feira, 3 de abril de 2012

Cristina critica Guerra das Malvinas e se limita a pedir negociações


César Felício | De Buenos Aires
A presidente argentina, Cristina Kirchner, disse que a Guerra das Malvinas, que ontem completou 30 anos de seu início, "não foi uma decisão do povo argentino e nem representou uma tentativa válida de exercer a soberania". Segundo ela, que comandou um ato público em Ushuaia, na Patagônia, para marcar a data, feriado nacional na Argentina, a incursão bélica "foi uma tentativa dos governantes de então de se perpertuar no poder".
Desde dezembro o governo argentino vem escalando ações para recolocar em pauta a reivindicação argentina sobre o arquipélago, que fica a menos de 500 km da costa do país. No discurso de ontem, porém, Cristina procurou se dissociar da ação militar e limitou-se a pedir a retomada das negociações.
A campanha da presidente pela reivindicação territorial não conseguiu o grau de unidade nacional visto em 1982, quando a Argentina, então sob regime militar, invadiu as ilhas. " Ao contrário do que aconteceu naquele tempo, a memória do desastre da guerra pesa, e o governo não conseguiu elaborar uma proposta concreta para o território, além do pedido de retomada das negociações. Isto limita as mobilizações à militância", disse o cientista político Vicente Palermo.
Ele foi um dos organizadores do manifesto "Malvinas - uma visão alternativa". Assinado por intelectuais com grande exposição mediática e distantes do kirchnerismo, o documento endossa o principal argumento usado pelo Reino Unido para travar as negociações: o de que os habitantes das ilhas precisam ser consultados. "É uma questão de ordem prática: não é razoável achar que qualquer negociação pode acontecer sem levar em conta os desejos daqueles que vivem nas ilhas", disse Palermo.
As ilhas foram ocupadas há 179 anos, quando a Argentina ainda se consolidava como nação e vivia em estado permanente de guerra civil. Hoje, a maioria dos habitantes das ilhas são de origem britânica.
A campanha de Cristina não teve impacto em sua popularidade. Segundo pesquisas, a aprovação da presidente, ainda bastante alta, está em declínio. Em março, a avaliação positiva oscilavam entre 50% e 60%, ante 30% a 40% de desaprovação. A trajetória de queda começou este ano, após o início de medidas de ajuste na economia.
A memória da guerra das Malvinas também foi evocada ontem pelo premiê do Reino Unido, David Cameron. Em declaração divulgada no site do governo britânico na, ele diz que "há 30 anos o povo das ilhas Falklands [o nome oficial britânico] sofreu um ato de agressão que procurava privá-lo de sua liberdade e de seu modo de viver".
O plano para atacar e dominar a colônia existia na Marinha argentina desde a queda de Juan Domingo Perón, em 1955, mas só começou a ser concretizado quando houve um golpe dentro do regime militar argentino que levou Leopoldo Galtieri ao poder, em dezembro de 1981. Naquele ano, o PIB argentino caiu 6,1%, e o regime perdia o controle de um processo de abertura política limitada, iniciado pelo antecessor de Galtieri, Roberto Viola. O ataque às ilhas seria uma tentativa de retomar a iniciativa política e garantir uma sobrevida ao regime militar.
A invasão aconteceu em 2 de abril de 1982. A reação britânica, de enviar uma força militar para retomar o arquipélago, surpreendeu os militares argentinos. A guerra terminou com a rendição argentina após 49 dias de luta efetiva, em 14 de junho. Morreram 649 argentinos e 255 ingleses. Galtieri foi destituído três dias depois do armistício.

Fonte: Valor via Resenha do Exército

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