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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Reino Unido propôs devolver Ilhas Malvinas apenas no ano de 2073


Para ex-diplomata argentino, lobby dos kelpers contra Argentina sempre foi forte e impediu acordo
 
BUENOS AIRES - Em 1974, a Grã-Bretanha propôs à Argentina um acordo no qual as Ilhas Malvinas (Falklands, para os britânicos) passariam formalmente para o Estado argentino em 99 anos. Os planos foram cancelados repentinamente por uma troca de governo em Londres e a morte do presidente Juan Domingo Perón.
Essa foi uma das várias idas e vindas das tumultuadas conversas anglo-argentinas sobre o arquipélago. "O lobby dos ilhéus contra a Argentina sempre foi muito forte em Londres e muito bem financiado", disse em entrevista ao Estado o embaixador Vicente Berasategui, que acompanhou as negociações entre Londres e Buenos Aires desde 1966 e foi embaixador na Grã-Bretanha na década passada.
 
Nos anos 60, a Grã-Bretanha estava disposta a entregar a soberania das ilhas à Argentina?
Em 1966, houve uma visita muito importante, a do secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, Michael Stuart. Em 1965, havíamos conseguido a aprovação da resolução da ONU, que solicitava que o processo de conversas começasse. Na época, um dos integrantes do governo britânico, Lord Charlton, uma figura importante do Foreign Office, disse que considerava necessário chegar a um acordo com a Argentina porque "mais cedo ou mais tarde" as coisas desandariam e poderia haver uma guerra. Essa ideia foi rejeitada no Parlamento. E nisso houve influência fortíssima do lobby dos ilhéus, que sempre foi muito bem financiada. Depois, em 1971, houve o estabelecimento de comunicações com as ilhas. Graças a esse acordo, o governo argentino da época decidiu investir e construiu uma pista aérea nas ilhas, um serviço de transporte dos ilhéus para emergências médicas no continente, além de oferecer bolsas de estudo.
 
Nos anos 70, a Grã-Bretanha, que já havia perdido várias colônias em todo o mundo, tentou um acordo com a Argentina?
Em 1974, os britânicos propuseram à Argentina um "condomínio" sobre as ilhas. O então presidente Juan Domingo Perón foi consultado pela chancelaria argentina. "Sim", disse Perón. "A partir do momento em que a gente estiver ali nas ilhas, ninguém nos mandará mais embora", acrescentou o presidente. Ele tinha razão. Mas, logo depois, houve uma crise de governo em Londres, eleições, e mudou o partido no poder. Além disso, duas semanas depois, Perón morreu. A Argentina ainda não havia respondido à proposta britânica quando o novo governo em Londres a retirou. Depois disso, veio a iniciativa de uma negociação do tipo Hong Kong, que os britânicos propuseram. Fomos generosos demais com eles, aceitamos coisas que nem os britânicos achavam que íamos aceitar, entre elas um lease-back (transação na qual um lado vende a propriedade e a aluga por um longo tempo) de 99 anos. Na época, o governo militar queria aceitar qualquer coisa. Mas aí veio o lobby dos ilhéus e a oposição no Parlamento.
 
Em 1982, o general Leopoldo Fortunato Galtieri e a cúpula militar acreditavam que os EUA ficariam neutros no conflito com a Grã-Bretanha?
Quando Galtieri toma a decisão de desembarcar nas ilhas, por um compromisso com o almirante (Jorge) Anaya - que o havia respaldado para ser presidente meses antes -, nas Forças Armadas existia a crença de que os EUA respaldariam a Argentina, já que o país havia colaborado com os americanos na América Central. Os integrantes da junta militar estavam convencidos de que o governo de Ronald Reagan estava grato ao governo argentino e permaneceria neutro.
 
O governo militar, intensamente anticomunista, começou uma espécie de "travestismo ideológico" ao pedir ajuda à Líbia e tentar um respaldo da URSS?
Havia divisões internas sobre isso. Quando o chanceler Nicanor Costa Méndez foi à reunião de países não alinhados em Havana, onde se reuniu com Fidel Castro, por exemplo. Na ocasião, o representante da Força Aérea argentina disse que de jeito nenhum iria a Cuba e não embarcou no avião.
 
O que recomendaria para as conversas anglo-argentinas daqui para a frente?
Acho que ambos devem baixar o nível de confronto. Os britânicos tampouco ganham com essa situação atual. Além disso, será difícil para os britânicos recuperarem a influência que tiveram no passado.
 Fonte: Estadão

terça-feira, 3 de abril de 2012

Cristina critica Guerra das Malvinas e se limita a pedir negociações


César Felício | De Buenos Aires
A presidente argentina, Cristina Kirchner, disse que a Guerra das Malvinas, que ontem completou 30 anos de seu início, "não foi uma decisão do povo argentino e nem representou uma tentativa válida de exercer a soberania". Segundo ela, que comandou um ato público em Ushuaia, na Patagônia, para marcar a data, feriado nacional na Argentina, a incursão bélica "foi uma tentativa dos governantes de então de se perpertuar no poder".
Desde dezembro o governo argentino vem escalando ações para recolocar em pauta a reivindicação argentina sobre o arquipélago, que fica a menos de 500 km da costa do país. No discurso de ontem, porém, Cristina procurou se dissociar da ação militar e limitou-se a pedir a retomada das negociações.
A campanha da presidente pela reivindicação territorial não conseguiu o grau de unidade nacional visto em 1982, quando a Argentina, então sob regime militar, invadiu as ilhas. " Ao contrário do que aconteceu naquele tempo, a memória do desastre da guerra pesa, e o governo não conseguiu elaborar uma proposta concreta para o território, além do pedido de retomada das negociações. Isto limita as mobilizações à militância", disse o cientista político Vicente Palermo.
Ele foi um dos organizadores do manifesto "Malvinas - uma visão alternativa". Assinado por intelectuais com grande exposição mediática e distantes do kirchnerismo, o documento endossa o principal argumento usado pelo Reino Unido para travar as negociações: o de que os habitantes das ilhas precisam ser consultados. "É uma questão de ordem prática: não é razoável achar que qualquer negociação pode acontecer sem levar em conta os desejos daqueles que vivem nas ilhas", disse Palermo.
As ilhas foram ocupadas há 179 anos, quando a Argentina ainda se consolidava como nação e vivia em estado permanente de guerra civil. Hoje, a maioria dos habitantes das ilhas são de origem britânica.
A campanha de Cristina não teve impacto em sua popularidade. Segundo pesquisas, a aprovação da presidente, ainda bastante alta, está em declínio. Em março, a avaliação positiva oscilavam entre 50% e 60%, ante 30% a 40% de desaprovação. A trajetória de queda começou este ano, após o início de medidas de ajuste na economia.
A memória da guerra das Malvinas também foi evocada ontem pelo premiê do Reino Unido, David Cameron. Em declaração divulgada no site do governo britânico na, ele diz que "há 30 anos o povo das ilhas Falklands [o nome oficial britânico] sofreu um ato de agressão que procurava privá-lo de sua liberdade e de seu modo de viver".
O plano para atacar e dominar a colônia existia na Marinha argentina desde a queda de Juan Domingo Perón, em 1955, mas só começou a ser concretizado quando houve um golpe dentro do regime militar argentino que levou Leopoldo Galtieri ao poder, em dezembro de 1981. Naquele ano, o PIB argentino caiu 6,1%, e o regime perdia o controle de um processo de abertura política limitada, iniciado pelo antecessor de Galtieri, Roberto Viola. O ataque às ilhas seria uma tentativa de retomar a iniciativa política e garantir uma sobrevida ao regime militar.
A invasão aconteceu em 2 de abril de 1982. A reação britânica, de enviar uma força militar para retomar o arquipélago, surpreendeu os militares argentinos. A guerra terminou com a rendição argentina após 49 dias de luta efetiva, em 14 de junho. Morreram 649 argentinos e 255 ingleses. Galtieri foi destituído três dias depois do armistício.

Fonte: Valor via Resenha do Exército

segunda-feira, 2 de abril de 2012

‘Argentina dificulta relação com o Brasil’


Governador das Malvinas afirma que habitantes das ilhas não são oprimidos e decidiram ser britânicos
Nigel Haywood
Mariana Timóteo da Costa

Nigel Haywood já representou o Reino Unido na Estônia e no Iraque, mas garante que seu trabalho mais desafiante está sendo agora, como governador das Malvinas. No ano em que a guerra entre argentinos e britânicos completa 30 anos e cresce a tensão entre os países, ele lidera o corpo diplomático britânico nas ilhas. Na capital Stanley, Haywood recebeu o GLOBO em sua bela casa, tomando chá entre quadros da realeza, para falar sobre a relação com a vizinhança.
O GLOBO: A economia das Malvinas realmente não depende mais do Reino Unido? 
NIGEL HAYWOOD : As Falklands são completamente independentes economicamente, tudo que se ganha aqui, fica aqui. Esta é uma das grandes mentiras que a Argentina conta, que as riquezas malvinenses vão para os britânicos.
O Reino Unido oferece apenas serviços diplomáticos e mantém a base de Mount Pleasant, que custa cerca de 70 milhões de libras por ano, uma porção mínima do orçamento militar britânico.
l Por que o senhor acha que a tensão com a Argentina aumentou?
 HAYWOOD: Você teria que perguntar isso à presidente (argentina) Cristina Kirchner. Não temos interesse em elevar a tensão, mas reagiremos se a Argentina aumentar sua ameaça. Por muitos anos Buenos Aires divulgou mentiras sobre nós, mas agora temos que corrigir. Basta algumas horas nas ilhas para ver que o povo não é oprimido sob o domínio britânico.
l Houve, pré-1982, um interesse real por parte do Reino Unido de entregar as Malvinas aos argentinos?
 HAYWOOD: Até os argentinos invadirem, muita coisa estava sendo negociada, mas sempre tropeçávamos em obstáculos porque percebíamos que os interesses dos malvinenses nunca eram atendidos. Qual é o ponto de descolonizar um país para outro colonizá-lo de novo? E mais: o povo é quem precisa decidir e o povo decidiu ser britânico.
l Por que a posição argentina encontra eco no resto da América do Sul? O Brasil e a Unasul apoiam as demandas argentinas.
l HAYWOOD: Há duas razões principais. A primeira é que a América Latina toda passou por um processo de descolonização no século XIX contra a Europa. Há um sentimento que rejeita um controle europeu. O segundo é uma grande tendência no mundo de formar grupos regionais. Eu adoraria, no entanto, que o Brasil, a grande potência regional, o Chile e o Uruguai pensassem que há coisas mais sérias com as quais se preocupar que não umas ilhas das quais a Argentina nunca foi dona. O Reino Unido tem uma relação incrível com o Brasil, pena que a Argentina dificulte tudo. Gostaríamos de manter o direito dos malvinenses à autodeterminação.
l Ou seja, direito de escolher o seu destino. O senhor acha que os malvinenses gostariam de ser completamente independentes do Reino Unido? HAYWOOD: Eu não sei, aqui todo o mundo tem uma ligação muito forte com o Reino Unido.
Na primeira metade do século XX, tantas colônias se tornaram independentes de nós, não temos nenhum problema com isso.
Mas não há movimento de independência aqui. Outra pergunta para o Brasil: Por que os brasileiros só aceitam colônia ou país independente? Há outros modelos: a Guiana Francesa é parte da França, há muitos outros caminhos.
l Qual a importância das Malvinas para a estratégia militar britânica?
 HAYWOOD: Mount Pleasant nos oferece uma base de operações no Atlântico Sul. Mas o motivo maior de termos uma base aqui é porque fomos invadidos! Queremos assegurar que isso não acontecerá de novo.
l E o poderoso destróier (HMS Dauntless), o submarino nuclear, o envio do príncipe William para cá. A Argentina acusa o Reino Unido de estar militarizando o Atlântico Sul. Como o senhor responde a isso? 
HAYWOOD: O príncipe veio para treinar, se quisesse dar um caráter político à visita, teria aparecido em público. Somos signatários do acordo de desnuclearização do Atlântico Sul e o implementamos.
Sobre o destróier: bom, vamos dizer que eu tenho um MAC velho e agora quero trocá- lo por um melhor. É apenas um upgrade militar. Quem provoca é a Argentina, impedindo voos para cá e proibindo navios de circularem com nossa bandeira pela região, proibindo empresas de petróleo de comercializar com a gente.
l Há chances para a paz com a Argentina?
 HAYWOOD: Dar uma chance à paz seria retomar o diálogo. Nos anos 90, avançamos nos tratados de pesca, no licenciamento de voos e navios, mas agora tudo piorou. Se o objetivo da Argentina é ganhar as pessoas daqui, não está fazendo um bom trabalho.
A Argentina espalha medo e desconfiança. Para se obter a paz, é necessário o contrário.
Fonte: O Globo

Malvinas: ex-paraquedista britânico vira membro de associação de veteranos argentinos

Por Sagran Carvalho.
“Eu quero que você me faça um favor”, disse Michael Southall, veterano da Guerra das Malvinas, “quero que você fale para o Juan Carlos Ianuzzo, da associação dos veteranos argentinos, que eu quero me afiliar a eles. Quero que me mandem, se puderem, um distintivo da associação para eu usar”, pediu emocionado à reportagem do Opera Mundi.
“Eu pago o correio”, continuou o ex-paraquedista do exército britânico, em tom desafiador. “Vou usar com muito orgulho, como um gesto de reconciliação”, disse ele num domingo à tarde, uma semana antes de a guerra completar 30 anos.
Roberto Almeida
"Usarei o distintivo dos veteranos argentinos com orgulho", disse Southhall. "Eu pago o correio".
Southall era apenas um adolescente quando voou para as Malvinas. Tinha 17 anos. Hoje, com cabeça raspada e sorriso fácil, o ex-combatente mora em uma ruazinha tranquila em Chester, sua cidade natal, perto de Liverpool, no noroeste da Inglaterra. “Nasci ali, na rua de trás”, diverte-se. “Não tem lugar como nossa própria casa.”
Nas paredes, poucas lembranças de um conflito: um quadro, um porta-retratos, um bibelô. Mas as marcas dos 72 dias de guerra emergem nos menores gestos do veterano. Durante a transmissão de um jogo entre Rangers e Celtics, clássico do futebol escocês, Southall não desgrudava os olhos da TV e, sem perceber, passava as mãos sobre os pés descalços e sem as unhas, perdidas na lama congelada das Malvinas.
“Tive ‘pé de trincheira’, quase gangrenou. Mas isso é o de menos”, disse, minimizando a ferida gerada no primeiro mês da guerra, quando teve que caminhar, com 50 quilos de equipamentos das costas, do Porto San Carlos, na costa oeste da ilha, até a sede do governo e foco da resistência argentina, no leste.
Para chegar a Porto Stanley, chamada de Puerto Argentino por nossos vizinhos, o 3º Regimento de Paraquedistas do exército do Reino Unido teve que percorrer a pé, desde a área de desembarque do navio anfíbio HMS Intrepid, cerca de 80 quilômetros em um terreno acidentado. Ali ficaram as unhas, neste mesmo trajeto em que, ao lado de sua tropa, passou fome. Estranhamente, Southall nunca achou que fosse morrer naquele abril de 1982.
Eu estava totalmente preparado, apesar de ser tão jovem. Acho que, na verdade, um paraquedista jamais sofreria de falta de confiança. Até mesmo quando ficamos velhos e barrigudos, continuamos confiantes”, contou. “Mas nunca subestimamos os argentinos, o que seria um grande erro. Sinceramente, não lembro de ninguém criticá-los. Tem gente que ainda fala disso nos nossos encontros dos veteranos, do respeito que tínhamos pelos argentinos”, relatou.
Remendos do tempo
Southall disse que, há 10 anos, talvez não aceitasse conversar com a reportagem. Muito menos teria pedido para afiliar-se à associação de veteranos argentinos. “Vamos amadurecendo com o tempo”, observou. Durante a mais intensa batalha da guerra, travada em Monte Longdon, nos arredores de Porto Stanley, o ex-paraquedista perdeu quatro amigos próximos. Um deles, ferido gravemente, morreu em pânico, em suas mãos. “Ainda fico nervoso ao falar disso”, admitiu, com lágrimas nos olhos, na única vez em que se emocionou durante a entrevista.
Arquivo Pessoal

 
Southall visitou Mount Longden em 2007, onde viu amigos morrerem, para prestar homenagem a ex-combatentes
Mesmo assim, como quem remendou o passado, afirma não ver os ex-combatentes argentinos como inimigos, razão pela qual tentou integrar-se à Aveguema (Associação de Veteranos da Guerra das Malvinas). “Não desejo nada de ruim para os soldados que lutaram contra mim, de forma nenhuma. Lembro deles atirando, tentando me matar. Mas foi uma situação fora do comum, e infelizmente fizemos o que tínhamos de fazer. Tínhamos de tomar Mount Longdon. E agora, olhando aquilo, parece apenas um monte de pedras, o que faz você pensar: por que mais de 100 pessoas morreram por aquilo? Naquele momento era importante”, explicou.
Southall disse, no entanto, que o e-mail enviado aos veteranos que lutaram pelo lado oposto nunca havia sido respondido. O desejo de integrar-se à associação e estabelecer um contato menos superficial do que o que já mantém com veteranos argentinos adicionados no Facebook ficou emstand by. Até a conversa com a reportagem.
O lado argentino
Criada em 2000 por ex-combatentes argentinos da Guerra das Malvinas, a Aveguema reúne hoje 2.900 sócios, dois quais 2.500 são veteranos e outros são aderentes, familiares de soldados e colaboradores. Juan Carlos Ianuzzo, capitão de barco e secretário administrativo da associação contou que não são raros os casos de veteranos argentinos que mantiveram contato com seus ex-inimigos.
“O conflito não é com uma pessoa, mas sim com um país”, explica Ianuzzo. “Apesar da raiva dos soldados de ambos os lados no momento da guerra, não tem motivo para ficar bravo com um soldado inglês. Fomos defender o que cada um considerava seu”. O comandante de um batalhão argentino, já falecido, por exemplo, durante anos “se viu assiduamente com o comandante do batalhão de paraquedistas contra o qual combateu e destruiu”, relata.
Segundo o capitão, um ex-combatente britânico veio à Argentina por intermédio de um jornalista irlandês que fez contato com a Aveguema para devolver uma corneta roubada de um argentino durante as batalhas. Trata-se de Tony Banks, ex-paraquedista do 2o. Regimento, que acaba de lançar um livro, Storming the Falklands, relatando o episódio. “Ele queria vir aqui só para devolvê-la. Nós averiguamos o número de série da corneta para identificar de quem era, e juntamos os dois”, garante.
O último dos exemplos dados pelo argentino sobre a frequência de casos que demonstram a falta de ressentimento entre os combatentes é o de um veterano britânico que mandou e-mail no ano passado pedindo para afiliar-se à associação – Ianuzzo estava falando de Southall: “Fizemos reuniões diretivas para decidir se ele seria aceito como sócio ou não. No fim, decidimos que sim, mas mandamos uma carta por e-mail pedindo os dados dele e ele nunca mais respondeu”.
Luciana Taddeo
“O conflito não é com uma pessoa, mas sim com um país”, disse o capitão Ianuzzo. "Não tem motivo para ficar bravo com um soldado inglês"
Ao tomar conhecimento da versão de Southall de que a solicitação de afiliação não havia chegado a seu e-mail, Ianuzzo se comprometeu a estabelecer novamente o contato com o veterano inglês. “Como ele não respondeu, não sabíamos quais eram as intenções dele”, disse, avaliando: “Não sei qual distintivo argentino ele quer usar em seu uniforme, mas podemos mandar o da associação. Ele já tinha sido aceito como sócio”.
Um gesto de reconciliação
Ontem (01/04), um gelado domingo de sol no Reino Unido, Southall estava bastante contente. Após a intermediação do Opera Mundi, ele e Ianuzzo trocaram e-mails. Hoje, 30 anos depois, o veterano da batalha mais sangrenta, que deixou mais de 100 mortos em Monte Longdon é membro efetivo da Associação de Veteranos da Guerra das Malvinas. “Estou feliz. Foi meu gesto de reconciliação. Agora aguardo o distintivo para usar. O Carlos (Ianuzzo) disse que vai me mandar”, avisou Southall, por telefone.
Para o militar britânico, o processo de reconciliação – consigo mesmo e com o ex-inimigo – claramente demandou muita energia. Uma de suas colocações mais marcantes, que demonstra nas palavras uma posição firme, de quem hoje vê a guerra por outros olhos, foi logo no primeiro contato feito pela reportagem, ainda por e-mail, em meados de março.
Nele, Southall afirmou: “É função dos políticos decidirem onde soldados lutam, e é função dos soldados lutar e morrer. Depois do fim de uma guerra, é função dos soldados perdoar e esquecer e cuidar de todos os veteranos. Sei que recebemos boas-vindas muito melhores que os veteranos argentinos e isso o povo argentino precisa corrigir.” 

Fonte: Opera Mundi via UOL.