domingo, 15 de abril de 2012

Secretário-geral da OEA vê avanços econômicos e institucionais sem precedentes
Jean Palou Egoaguirre

WASHINGTON. O secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), o chileno José Miguel Insulza, diz que existem razões de peso, tanto econômicas como políticas, para louvar o momento pelo qual passa a América Latina, que encerra hoje sua principal cúpula regional - com presença ainda dos Estados Unidos - em Cartagena, na Colômbia.
- Antes éramos os primeiros a entrar nas crises econômicas, os últimos a sair e os que saíam em pior estado. Desta vez, a região objetivamente resistiu ao impacto da crise. Claro, muito pelas exportações de commodities, mas também há sinais evidentes de que a economia foi bem gerida antes da crise - afirma.
O secretário-geral afirma que essa situação sem precedentes germinou a ideia de que a região pode, enfim, decolar em relação ao desenvolvimento.
- Se você olhar os dados da última década, já notará um enorme progresso. Entre 2001 e 2011, a América Latina e o Caribe tiveram um crescimento superior à soma das duas décadas anteriores - destaca.
Na análise de Insulza, a região também amadureceu em termos institucionais, superando a instabilidade política que a caracterizou nos anos 90.
- Com a única exceção de Honduras, a situação é bastante satisfatória do ponto de vista das democracias. Desde 2005, nenhum outro governo foi derrubado, nenhum terminou prematuramente, nenhum presidente foi retirado pelo Congresso. Antes isso acontecia uma vez por ano, pelo menos. Então, não há democracia apenas para eleger autoridades mas também estabilidade política. E isso acaba gerando um clima melhor para a região - afirma.
O secretário-geral reconhece, porém, que a América Latina enfrenta ainda sérios desafios - o principal deles a criminalidade e a violência, com as maiores taxas de homicídio do mundo.
- Os países têm de buscar uma maior coordenação, o que nem sempre é fácil. Os procedimentos de intercâmbio de informação são muito defasados em relação à velocidade com que o crime organizado se move através das fronteiras - afirma.
Restrições à participação das Forças Armadas no combate
O secretário-geral apoia a criação de um Centro Hemisférico contra o Crime Organizado para coordenar políticas conjuntas. Ele tem restrições, porém, à crescente tendência na região em usar as Forças Armadas no combate contra o narcotráfico.
- Não gosto da participação das Forças Armadas como polícia, mas tenho uma grande compreensão pelos países que acreditam não ter outra opção. Acho que é natural que o façam quando há muito Exército e pouca polícia e quando os narcotraficantes têm armas avançadas que não podem ser combatidas só pela polícia. O ideal é que enfrentemos as causas mais estruturais como a desigualdade, a pobreza, o desemprego e a falta de educação, mas também é preciso combater o crime, e o crime se combate com os recursos que se tem. Naturalmente é difícil pensar que alguns países possam fazer isso só com suas Forças policiais - opina.
Por pressão de presidentes de países que enfrentam sérios problemas por causa do narcotráfico, como a anfitriã Colômbia, mas também o México e nações centro-americanas, a cúpula que se encerra hoje se propôs a discutir uma correção de rumo na estratégia de combate às drogas.
- A guerra contra as drogas tem sido uma experiência duríssima nos últimos anos em vários países da América Latina, com efeitos econômicos fortes e o aumento do crime organizado. Mas, apesar de tudo, ela teve algum resultado: em 2010, por exemplo, se confiscou mais de metade da cocaína que foi produzida e, no fim do ano passado, se estimava em 3,6 milhões o número de presos em todo o continente, dos quais 33% estão detidos por questões relacionadas às drogas - pondera Insulza, para em seguida questionar:
- A pergunta que temos que nos fazer é: vamos continuar eternamente nessa guerra? Vamos continuar confiscando e confiscando e prendendo mais gente? Enquanto isso, as gangues se fortaleceram e ampliaram suas ações para outros crimes, como sequestro, lavagem de dinheiro, tráfico de armas e de pessoas. Então existe vontade de rediscutir a estratégia.
O secretário-geral ressalta que na última reunião da OEA, no Suriname, já houve um acordo regional para pôr mais ênfase na prevenção e no enfrentamento da demanda por drogas, e não somente da oferta.
- Acredito que há uma consciência de todos que essas são medidas que os países não podem tomar individualmente. É preciso fazer uma reavaliação da estratégia, reavaliar tudo que já foi feito antes, e que todos estejam de acordo sobre uma possível nova estratégia. Então não acredito que essa estratégia saia já de Cartagena, mas é uma primeira discussão, que já é uma grande coisa para um tema cujo simples debate era um tabu. Mas não espere grandes resultados - pondera.
"Cuba não quis voltar ao sistema interamericano"
Insulza aponta que os EUA, maiores consumidores mundiais de drogas, são mais reticentes a debater sua estratégia de combate aos entorpecentes porque o tráfico "não está causando as graves consequências que está causando em outras partes do continente".
- É um problema muito grave, mas que para os EUA não tem a envergadura que tem para países menores, então creio que eles vão ser cautelosos nessa discussão - avalia.
Apesar das divergências remanescentes, Insulza ressalta que as relações entre EUA e América Latina hoje são muito diferentes do que eram antigamente, e que o governo americano atuou como "jogador de equipe" nos últimos conflitos que aconteceram no continente, como o de Honduras.
- A relação não é ruim. Mas é um pouco distante, e os países latino-americanos gostariam que temas mais complexos fossem discutidos. Isso não acontece porque os EUA estão muito envolvidos com problemas em outras regiões. E também porque os países latino-americanos elevaram sua autoestima e querem dialogar no mesmo nível.
Sobre Cuba, ele é taxativo:
- A Assembleia-Geral convidou Cuba a reiniciar o diálogo seguindo os princípios e programas da OEA. Cuba reagiu dizendo que não tinha o menor interesse nisso, que não queria retornar ao sistema interamericano.
Fonte: O Globo

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