segunda-feira, 16 de abril de 2012

Adeus, Cúpula das Américas?

Por Sagran Carvalho.

Falta de consenso sobre Cuba e Malvinas esvazia fim do encontro e arrisca futura realização
Eliane Oliveira

A falta de consenso em torno de Cuba e das Malvinas levou ao fracasso a Cúpula das Américas. Reunidos durante o fim de semana, os 30 chefes de Estado presentes não conseguiram sequer fechar uma declaração final e deixaram na cidade colombiana a impressão de que esse fórum de debates, criado em 1994 em Miami, por iniciativa dos Estados Unidos, será extinto ou acontecerá em um novo formato ainda desconhecido.
As divergências já eram conhecidas antes mesmo do início da reunião - quando o presidente do Equador, Rafael Correa, anunciou que não participaria do evento em solidariedade a Cuba, que não fora convidada por decisão dos EUA. Correa foi acompanhado pelo nicaraguense Daniel Ortega.
Cristina e Morales saem antes do fim
Na manhã de ontem, após a foto oficial dos chefes de Estado, foi a vez da argentina Cristina Kirchner ir embora. Cristina se irritou com a falta de apoio de EUA e Canadá a seu país no conflito envolvendo as Ilhas Malvinas (ou Falklands), ocupadas pelo Reino Unido no século XIX. A mágoa já era evidente no sábado à noite: a presidente da Argentina não compareceu ao jantar oferecido aos chefes de Estado pelo colombiano Juan Manuel Santos. Mas a gota d"água foi quando, no discurso proferido por Santos no domingo, a questão das ilhas não foi mencionada. Em solidariedade a Argentina e Cuba, o boliviano Evo Morales também partiu antes do encerramento oficial do evento.
O dia de ontem foi marcado por imprevistos até mesmo para a delegação brasileira. A reunião bilateral que haveria entre Santos e a presidente Dilma Rousseff foi cancelada sem explicação. Dilma, que só voltaria para Brasília à noite, antecipou a viagem após almoçar risoto em um conhecido restaurante da cidade colombiana.
- O tom dos debates foi de maturidade - desconversou o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota.
A questão é que os países latino-americanos, entre os quais o Brasil, haviam já anunciado que esta seria a última cúpula sem a presença de Cuba. Perguntado pelo GLOBO se, com a falta de resultados, haverá uma próxima cúpula daqui a três anos, no Panamá, como previsto, Patriota respondeu:
- Não sei.
Uma das explicações para o veto dos EUA a Cuba - em que foram acompanhados pelos canadenses -, de acordo com diplomatas presentes ao evento, é que o presidente Obama não poderia assumir compromissos em pleno ano eleitoral. Essa observação foi feita também no domingo, em reunião fechada entre os presidentes, pelo uruguaio José Mujica.
Essa preocupação de Obama fez com que ele ficasse praticamente isolado na reunião de cúpula. Até o presidente da Colômbia, país tradicionalmente aliado dos EUA, defendeu abertamente a inclusão de Cuba nos debates.
- O isolamento, o embargo, a indiferença, o olhar para o outro lado vêm sendo ineficazes - disse o anfitrião, que firmou ontem, com o presidente Obama, um acordo de livre comércio entre Colômbia e EUA.
Sobre o tema das Malvinas, Santos defendeu uma solução pacífica e negociada ao conflito entre Argentina e Reino Unido. A posição era partilhada pela maioria das delegações, incluindo a do Brasil.
Demonstrando indiferença em relação ao impasse, o ex-presidente de Cuba, Fidel Castro, publicou ontem um artigo elogiando a presidente Dilma Rousseff. Ele destacou o "pulso firme" da brasileira ao defender, durante um encontro de empresários sábado de manhã - do qual participaram também Obama e Santos - que os EUA mantenham relações em "pé de igualdade" com o Brasil e o restante da América Latina.
"Dilma Rousseff, uma mulher capaz e inteligente, não deixa de identificar essas realidades e sabe abordá-las com autoridade e dignidade", enfatizou Fidel, no artigo publicado na imprensa cubana.
Barack Obama também foi minoria nas discussões sobre a revisão da atual política de combate ao narcotráfico defendida, principalmente, por Guatemala, Costa Rica e Colômbia. A questão foi encaminhada à enfraquecida Organização dos Estados Americanos (OEA), que recebeu um mandato para analisar um possível replanejamento da luta contra as drogas.
Outra saia justa enfrentada por Obama foi o vazamento da informação de que, dias antes de o líder americano desembarcar em Cartagena, 11 agentes e cinco militares de sua equipe de segurança foram obrigados a voltar para os EUA sob a acusação de terem levado prostitutas ao hotel onde estavam hospedados.
Além disso, a cúpula emitiu três comunicados sobre temas específicos. Um deles diz respeito à Rio+20, que ocorre em junho no Rio de Janeiro. O documento pede o comparecimento dos chefes de Estado da região ao evento e que repensem os modelos atuais de desenvolvimento. Outros tratam do crime organizado internacional e da realização de um fórum de competitividade regional.
Presidente de um país seriamente afetado pelo crime organizado, o mexicano Felipe Calderón anunciou que o tema receberá mais atenção dos latino-americanos.
- O México propôs, e a Cúpula aprovou, a criação de um sistema interamericano contra o crime organizado antes do fim do ano - disse o presidente mexicano aos jornalistas, após o término da reunião de cúpula. - Vamos tomar as primeiras medidas para organizar (um centro de combate ao crime organizado). Vamos criar o centro e convocar os países, organizar as reuniões e dar o acompanhamento técnico. O fruto dessas deliberações irá configurar uma rede continental que articule as políticas e as ações para se pôr em prática no terreno.
Fonte: O Globo.

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