domingo, 27 de maio de 2012

Tema é tabu até para estudiosos da história militar

Por Sagran Carvalho.


RICARDO BONALUME NETO
Foram quatro sessões principais, em geral com três conferencistas cada uma. E mais duas sessões em que foram apresentadas comunicações breves durante o Encontro de Historiadores Militares, realizado na semana passada na Academia Militar das Agulhas Negras em Resende (RJ). 
Havia militares historiadores e acadêmicos. Ninguém apresentou estudo sobre o regime militar. 
Haveria tema tabu? A Folha fez a pergunta em uma das sessões, em que havia um historiador da Marinha, um civil e um do Exército. 
"A revolta dos marinheiros de 1910 dói na Marinha até hoje, é um tema muito sensível", disse o historiador e capitão-de-mar-e-guerra Francisco Eduardo Almeida, da Escola de Guerra Naval. 
Ele lembra que em 2010, centenário dessa "revolta da chibata", a Marinha ficou "muda". "Como historiador acho péssimo; como militar, acho bom", declarou. 
Já o civil Cesar Campiani Maximiano, professor do Instituto Meira Mattos da Eceme (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército), declarou que o tema não lhe interessa pessoalmente. 
O coronel reformado Cláudio Moreira Bento, 80, Presidente da Federação de Academias de História Militar Terrestre do Brasil, não respondeu nada. 
"Não é preciso uma crise esquizofrênica", brincou o historiador Arno Wehling, presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, comentando a "luta" do oficial da Marinha com sua "dicotomia" de historiador e militar. "O historiador lida com a construção da memória." 
Militares comentam que falar abertamente ou escrever sobre o regime militar é complicado pois muitos dos atores estão vivos; e os militares da ativa não podem ter posicionamento político. 
Em artigo em 12 de maio no jornal "O Estado de S. Paulo", o general-de-exército Romulo Bini Pereira, na reserva e ex-chefe do Estado Maior da Defesa, declarou que "as Forças Armadas cumpriram um papel impecável. Voltaram-se para suas missões constitucionais, sem a mínima interferência no processo político que aqui se desenvolvia." 
Para Bini, os militares consideram a Comissão da Verdade é parcial e representa um ato de "revanchismo". 
O general-de-exército Augusto Heleno, que comandou as forças na ONU no Haiti, tuitou: "Na minha opinião, retrata o pensamento de 90% dos militares e de grande parte da sociedade". 
Folha de São Paulo.

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