Por Sagran Carvalho.
DO WASHINGTON POST
CABUL — Os Estados Unidos, há vários anos, vêm libertando secretamente detentos de alta relevância de uma prisão militar no Afeganistão, como parte das negociações com grupos insurgentes. Trata-se de um esforço expressivo para conter a violência, mas que autoridades americanas reconhecem engendrar riscos substanciais.
Como os Estados Unidos têm buscado, sem sucesso, um acordo de paz com o Talibã, o programa de libertação estratégica, como é apelidado, tem servido silenciosamente como um canal diplomático ativo. Permite que autoridades americanas usem prisioneiros como moeda de barganha nas províncias rebeldes onde o poder militar atingiu os seus limites.
No entanto, a estratégia de libertação é uma aposta: os presos soltos são muitas vezes os notórios guerrilheiros que não seriam libertados se o sistema legal tradicional para prisioneiros militares no Afeganistão fosse seguido.
— Todo mundo concorda que eles são culpados pelo que fizeram e que devem permanecer na prisão. Todo mundo concorda que eles são os caras maus, porém os benefícios superam os riscos — afirma um oficial americano que, como outros, discutiu a questão sob a condição de anonimato.
As libertações vêm em meio a esforços mais amplos para pôr fim a uma guerra que já dura uma década por meio da negociação — uma característica central da estratégia do governo Obama para retirar os Estados Unidos do Afeganistão.
Esses esforços, contudo, produziram pouco ou nenhum progresso nos últimos anos. Em parte, eles foram barrados pela falta de vontade dos Estados Unidos em libertar cinco prisioneiros de Guantánamo — um gesto que líderes insurgentes tratam como condição prévia para as negociações de paz.
Como os Estados Unidos têm buscado, sem sucesso, um acordo de paz com o Talibã, o programa de libertação estratégica, como é apelidado, tem servido silenciosamente como um canal diplomático ativo. Permite que autoridades americanas usem prisioneiros como moeda de barganha nas províncias rebeldes onde o poder militar atingiu os seus limites.
No entanto, a estratégia de libertação é uma aposta: os presos soltos são muitas vezes os notórios guerrilheiros que não seriam libertados se o sistema legal tradicional para prisioneiros militares no Afeganistão fosse seguido.
— Todo mundo concorda que eles são culpados pelo que fizeram e que devem permanecer na prisão. Todo mundo concorda que eles são os caras maus, porém os benefícios superam os riscos — afirma um oficial americano que, como outros, discutiu a questão sob a condição de anonimato.
As libertações vêm em meio a esforços mais amplos para pôr fim a uma guerra que já dura uma década por meio da negociação — uma característica central da estratégia do governo Obama para retirar os Estados Unidos do Afeganistão.
Esses esforços, contudo, produziram pouco ou nenhum progresso nos últimos anos. Em parte, eles foram barrados pela falta de vontade dos Estados Unidos em libertar cinco prisioneiros de Guantánamo — um gesto que líderes insurgentes tratam como condição prévia para as negociações de paz.
Paliativo
Ao contrário de Guantánamo, a libertação dos presos do centro de detenção de Parwan — a única prisão militar americana no Afeganistão — não exige a aprovação do Congresso e pode ser feita de forma clandestina. E, embora possa ser visto como uma forma de pôr fim à guerra que provocou a morte de quase 2 mil americanos, o programa de libertação estratégica tem uma meta menos ambiciosa: acabar com a violência em áreas onde a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) é incapaz de garantir a segurança, particularmente em um momento no qual as tropas estão sendo retiradas do país. A pretensão é que as libertações produzam ganhos táticos — não são consideradas, entretanto, parte de um grande acordo com o Talibã.
Autoridades americanas não informaram quantos detidos foram libertados com o programa, embora digam que tais casos são relativamente raros. A libertação estratégica já existe há vários anos, mas as autoridades não confirmaram exatamente o ano exato da criação.
O processo se inicia a partir de diálogos entre militares americanos e comandantes insurgentes ou grandes chefes locais. Esses prometem que a violência será reduzida no distrito ou mesmo que militantes deixarão de lutar por completo se determinados insurgentes forem libertados de Parwan. O valor da compensação e a sinceridade da garantia são ponderados por militares de alto escalão em Cabul.
Ao contrário de Guantánamo, a libertação dos presos do centro de detenção de Parwan — a única prisão militar americana no Afeganistão — não exige a aprovação do Congresso e pode ser feita de forma clandestina. E, embora possa ser visto como uma forma de pôr fim à guerra que provocou a morte de quase 2 mil americanos, o programa de libertação estratégica tem uma meta menos ambiciosa: acabar com a violência em áreas onde a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) é incapaz de garantir a segurança, particularmente em um momento no qual as tropas estão sendo retiradas do país. A pretensão é que as libertações produzam ganhos táticos — não são consideradas, entretanto, parte de um grande acordo com o Talibã.
Autoridades americanas não informaram quantos detidos foram libertados com o programa, embora digam que tais casos são relativamente raros. A libertação estratégica já existe há vários anos, mas as autoridades não confirmaram exatamente o ano exato da criação.
O processo se inicia a partir de diálogos entre militares americanos e comandantes insurgentes ou grandes chefes locais. Esses prometem que a violência será reduzida no distrito ou mesmo que militantes deixarão de lutar por completo se determinados insurgentes forem libertados de Parwan. O valor da compensação e a sinceridade da garantia são ponderados por militares de alto escalão em Cabul.
Sistema heterodoxo
Os insurgentes libertados por meio do programa secreto são os únicos detentos de Parwan que são capazes de contornar o sistema judicial comum para os casos. A libertação deles é aprovada diretamente pelo alto comandante e por advogado militares dos Estados Unidos no Afeganistão. Um oficial descreveu o processo como sendo "fora do protocolo normal".
Em oposição ao programa de reintegração formal promovido pela Otan, que obriga os militares a cortarem laços com a insurgência, a libertação estratégica não requer que os beneficiados reneguem completamente o Talibã, o Hezb-i-Islami ou outros grupos insurgentes. Em alguns casos, os detidos podem manter essas conexões e as usar para facilitar a construção da paz entre os americanos e os insurgentes.
— Nós procuramos detidos que têm influência sobre outros insurgentes, indivíduos cuja libertação teria um efeito tranquilizador sobre toda uma área. Nesses casos, os benefícios superam as razões para o manter detido — diz um oficial.
Alguns afegãos alegam que, apesar da possível eficácia, tal programa marginaliza o seu papel na reconciliação do país. Eles costumam oferecer informações que levam à libertação estratégica, mas são os americanos que dão a palavra final. Em alguns casos, os comandantes insurgentes tentam intermediar o acordo diretamente com as autoridades americanas, excluindo as forças de segurança afegãs.
— Nós tentamos fazer com que os comandantes insurgentes trabalhem com o Exército Nacional Afegão, mas eles não se interessaram — contou um comandante americano que opera no leste do Afeganistão e que trabalhou em uma libertação estratégica neste ano.
Os insurgentes libertados por meio do programa secreto são os únicos detentos de Parwan que são capazes de contornar o sistema judicial comum para os casos. A libertação deles é aprovada diretamente pelo alto comandante e por advogado militares dos Estados Unidos no Afeganistão. Um oficial descreveu o processo como sendo "fora do protocolo normal".
Em oposição ao programa de reintegração formal promovido pela Otan, que obriga os militares a cortarem laços com a insurgência, a libertação estratégica não requer que os beneficiados reneguem completamente o Talibã, o Hezb-i-Islami ou outros grupos insurgentes. Em alguns casos, os detidos podem manter essas conexões e as usar para facilitar a construção da paz entre os americanos e os insurgentes.
— Nós procuramos detidos que têm influência sobre outros insurgentes, indivíduos cuja libertação teria um efeito tranquilizador sobre toda uma área. Nesses casos, os benefícios superam as razões para o manter detido — diz um oficial.
Alguns afegãos alegam que, apesar da possível eficácia, tal programa marginaliza o seu papel na reconciliação do país. Eles costumam oferecer informações que levam à libertação estratégica, mas são os americanos que dão a palavra final. Em alguns casos, os comandantes insurgentes tentam intermediar o acordo diretamente com as autoridades americanas, excluindo as forças de segurança afegãs.
— Nós tentamos fazer com que os comandantes insurgentes trabalhem com o Exército Nacional Afegão, mas eles não se interessaram — contou um comandante americano que opera no leste do Afeganistão e que trabalhou em uma libertação estratégica neste ano.
O relato de uma libertação
Um caso recente envolveu um comandante com o grupo insurgente Hezb-i-Islami, descrito pelo tenente-coronel John Woodward — ex-comandante americano no norte da província de Wardak — como " um jogador importante operacional e taticamente”.
No Vale Nerkh, uma faixa violenta de Wardak, Woodward havia decidido que, dado os recursos disponíveis, não havia maneira de combater ao mesmo tempo o Talibã e o Hezb-i-Islami. Os dois grupos têm estruturas diferentes de liderança e operam de forma independente.
Através de políticos e chefes locais, o oficial americano começou a negociar com os comandantes do Hezb-i-Islami. Essas conversas progrediram, e, semanas mais tarde, o grupo insurgente estava fornecendo serviço útil de inteligência sobre o paradeiro dos guerrilheiros do Talibã. Pouco tempo depois, as tropas americanas e os guerrilheiros do Hezb-i-Islami estavam conduzindo operações conjuntas, viajando nos mesmos veículos e dormindo nas mesmas bases, conta Woodward.
Entretanto, em meio a esse progresso, os comandantes insurgentes chegaram a Woodward com um pedido. Eles queriam que um companheiro — um homem considerado um "jogador importante" — fosse libertado de Parwan. Woodward então entrou em contato com os seus superiores sobre o programa de libertação estratégica.
Um caso recente envolveu um comandante com o grupo insurgente Hezb-i-Islami, descrito pelo tenente-coronel John Woodward — ex-comandante americano no norte da província de Wardak — como " um jogador importante operacional e taticamente”.
No Vale Nerkh, uma faixa violenta de Wardak, Woodward havia decidido que, dado os recursos disponíveis, não havia maneira de combater ao mesmo tempo o Talibã e o Hezb-i-Islami. Os dois grupos têm estruturas diferentes de liderança e operam de forma independente.
Através de políticos e chefes locais, o oficial americano começou a negociar com os comandantes do Hezb-i-Islami. Essas conversas progrediram, e, semanas mais tarde, o grupo insurgente estava fornecendo serviço útil de inteligência sobre o paradeiro dos guerrilheiros do Talibã. Pouco tempo depois, as tropas americanas e os guerrilheiros do Hezb-i-Islami estavam conduzindo operações conjuntas, viajando nos mesmos veículos e dormindo nas mesmas bases, conta Woodward.
Entretanto, em meio a esse progresso, os comandantes insurgentes chegaram a Woodward com um pedido. Eles queriam que um companheiro — um homem considerado um "jogador importante" — fosse libertado de Parwan. Woodward então entrou em contato com os seus superiores sobre o programa de libertação estratégica.
Fonte: Washington Post via Globo.com
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