Por Sagran Carvalho.
Em 2 de maio de 2011, um helicóptero das forças especiais da Marinha americana pousou no complexo de Abbotabad para efetuar a operação que resultaria na morte do inimigo número um dos Estados Unidos. Para Shaukat Qadir, a operação das forças especiais da Marinha americana foi realizada com precisão clínica. O militar paquistanês aposentado passou os últimos oito meses pesquisando os últimos anos do inimigo número um dos americanos. "Talvez um diretor de Hollywood tenha dirigido a operação", brinca, acrescentando que a operação teve extremo sucesso.
Quando o helicóptero se aproximou, Abu Ahmed al-Kuwaiti, braço-direito de Bin Laden no esconderijo, ordenou que seu irmão, Abrar, checasse a situação. "Vá checar, eu acho que os americanos chegaram", teria dito al-Kuwaiti, segundo Qadir, que cita o depoimento da mulher do homem como fonte. Os dois irmãos foram mortos durante a operação, mas em nenhum momento tentaram pegar as kalashnikovs que mantinham atrás de uma porta na casa de hóspedes do complexo, onde moravam. Para Qadir, isso seria uma evidência de que os irmãos também faziam parte da trama.
No entanto, Qadir vai além. Ele diz que ninguém tentou se defender durante a operação das forças especiais americanas. "Nem um único tiro foi disparado por alguém de dentro do complexo", diz o militar aposentado. "Não houve tentativa de ninguém de dentro do complexo de se defender."
A versão oficial conta que os dois irmãos foram mortos na casa de hóspedes pelos militares americanos. Assim como Bushra, a mulher de Abrar. Na sequência, Khalid, o filho que se opôs à traição de Khairia, correu em direção aos militares e foi morto. Quando as forças especiais chegaram ao quarto onde Bin Laden estava, encontram duas mulheres, Amal e Siham, ao redor do terrorista. Amal foi baleada na perna e ambas foram empurradas para o lado. Bin Laden foi abatido com um tiro no peito e outro na cabeça.
Os militares envolvidos então transmitiram a mensagem: "Por Deus e pelo país - Jerônimo, Jerônimo, Jerônimo...Jerônimo E.K.I.A (Enemy killed in action - inimigo morto na ação, em português). Ao que o presidente americano, Barack Obama, que acompanhava a operação da Casa Branca respondeu: "Nós o pegamos".
"Foi planejado para que fosse uma execução e foi uma execução", diz Qadir.
Sobre a polêmica envolvendo o corpo de Bin Laden, Qadir acredita que ele de fato foi jogado ao mar. "Mas as razões foram erradas", ressalta. Para o ex-militar, os americanos, mesmo mantendo o desejo de enterrar o terrorista em 24 horas, poderiam ter chamado jornalistas locais para ver o corpo. "Mas eles não fizeram isso por uma única razão: as pessoas nos Estados Unidos teriam dito 'vocês deveriam se envergonhar. É esse o pequeno e enfraquecido ser humano que nós caçamos por uma década? Ele é um moribundo'".
Shaukat Qadir conversou com o Terra por telefone de Islamabad, no Paquistão: "Bin Laden foi traído"
Foto: Arquivo pessoal/Divulgação
Foto: Arquivo pessoal/Divulgação
Aposentado em 2003, Bin Laden foi traído por mulher e pela Al-Qaeda
Osama bin Laden teria sido vítima de uma traição arquitetada pela Al-Qaeda e da qual seus dois funcionários mais próximos e uma de suas mulheres teriam feito parte. Esta é a tese de Shaukat Qadir, brigadeiro aposentado da Força Aérea paquistanesa e que hoje atua como analista independente. Em entrevista concedida por telefone ao Terra, Qadir contou como foram os últimos anos de vida de Bin Laden e detalhou a operação realizada no dia 2 de maio de 2011, em Abbotabad, no Paquistão.
Qadir começou investigar a morte de Bin Laden em junho de 2011. O resultado estará no livro Operation Geronimo: the betrayal and execution of Osama bin Laden and aftermath (Operação Jerônimo: a traição e execução de Osama bin Laden e suas consequências, em tradução livre), cuja venda pela internet está prevista para começar no dia 2 de maio, data que marca o aniversário da operação que culminou na morte do terrorista.
Qadir conta que, durante os seus 35 anos de forças armadas, fez muitos amigos dentro do Exército e nas áreas tribais paquistanesas. Com a ajuda deles, entrou em contato com membros da Al-Qaeda. Foi assim que surgiu a hipótese de traição. Qadir também teve acesso aos depoimentos dos sobreviventes - a maioria familiares de Bin Laden - do ataque ao complexo de Abbotabad, e a documentos da agência de inteligência paquistanesa ISI.
Qadir salienta que suas conclusões são uma conjectura baseada em informações que descobriu em sua pesquisa.
Segundo o levantamento de Qadir, Bin Laden não comandava a Al-Qaeda desde o final de 2003, quando foi aposentado pela Shoora (Alto Conselho) da Al-Qaeda. A partir dali, Bin Laden continuou enviando mensagens para o egípcio Abu Muhammad Ayman al-Zawahiri, que o sucedeu no comando. "Ele recebia supostas atualizações, mas ninguém lhe dava mais atenção", diz Qadir.
Os últimos anos de Bin Laden
Após sua forçada aposentadoria, Bin Laden teria sido abrigado em áreas tribais no Afeganistão e no Paquistão. Ele só teria chegado ao complexo de Abbotabad em maio de 2005, onde permaneceu até sua captura. Ali, Bin Laden passou os últimos anos ao lado de duas esposas, Amal Fateh al-Sadah e Siham Sabar, e seus filhos. Também estavam com ele seu braço-direito, um homem identificado como Abu Ahmed al-Kuwaiti, o irmão deste, e as famílias de ambos.
Após sua forçada aposentadoria, Bin Laden teria sido abrigado em áreas tribais no Afeganistão e no Paquistão. Ele só teria chegado ao complexo de Abbotabad em maio de 2005, onde permaneceu até sua captura. Ali, Bin Laden passou os últimos anos ao lado de duas esposas, Amal Fateh al-Sadah e Siham Sabar, e seus filhos. Também estavam com ele seu braço-direito, um homem identificado como Abu Ahmed al-Kuwaiti, o irmão deste, e as famílias de ambos.
Qadir aponta que, ao contrário do que foi divulgado pela mídia americana, o complexo não se tratava de uma mansão. "Incluindo crianças, 27 pessoas viviam em 11 quartos dentro do complexo".
Nos anos em que passou em Abbotabad, acredita-se que Bin Laden estivesse com a saúde muito debilitada. No entanto, Qadir sublinha que esta é uma questão controversa. "Primeiramente, ele ainda estava dormindo com Amal - sua esposa mais nova - e gerou dois filhos. Ele estava saudável para isso", diz o analista. Mas Bin Laden sofria de senilidade precoce e já não tinha capacidade para subir escadarias sozinho.
A traição e o "fim do sofrimento"
"Na minha visão, a Shoora Al-Qaeda decidiu traí-lo", diz Qadir. "Eles não tinham contato direto entre a CIA e a ISI. Então eles planejaram a traição via talibãs ligados à ISI, que manteve a CIA informada. Se eles não tivessem feito isso, Osama bin Laden poderia ter vivido outros seis anos sem ser descoberto".
"Na minha visão, a Shoora Al-Qaeda decidiu traí-lo", diz Qadir. "Eles não tinham contato direto entre a CIA e a ISI. Então eles planejaram a traição via talibãs ligados à ISI, que manteve a CIA informada. Se eles não tivessem feito isso, Osama bin Laden poderia ter vivido outros seis anos sem ser descoberto".
O componente vital desta traição seria a mais velha das mulheres do terrorista (ele ainda teve outras duas esposas anteriormente), Khairiah Sabar. Qadir aponta que Khairiah foi libertada de uma prisão iraniana em setembro de 2010 e procurou a Al-Qaeda para retornar ao convívio de seu marido. Ela teria sido enviada pela organização terrorista, que queria os US$ 25 milhões oferecidos pela captura.
O militar afirma que a versão oficial da CIA, de que chegou ao esconderijo seguindo o rastro de al-Kuwaiti, é falsa. Ele aponta que todas as suas fontes dão conta de que este homem se movimentou livremente pelo Paquistão. E também fez viagens ao exterior sob pseudônimos, mesmo após suspeitas sobre ele terem sido levantadas. "Minha conclusão, e reitero que é conjectura, é de que Khairiah foi enviada", diz Qadir.
Para ele, a chegada de Khairiah ao complexo de Abbotabad, entre o final de fevereiro e o começo de março de 2011, marca o início do fim. Enciumada de Amal, a mais jovem das mulheres de Bin Laden, Khairiah teria criado inúmeros problemas à família, que outrora vivia em harmonia.
Segundo depoimentos de Amal, que acusa Khairiah da traição, um dos filhos de Bin Laden o teria informado dos planos da recém-chegada no início de abril, após a própria ter-lhe confessado que esta era sua "última missão". O homem mais procurado do mundo teria então pausado, mirado pela janela com um olhar perdido, e dito após alguns segundos: "Bom, ela estaria me fazendo um favor, me livrando do meu sofrimento. Se é o dever da minha mulher mais velha, então que seja".
O fim da caçada e o destino do corpo
Já era 2 de maio (ainda dia 1º no Brasil) quando um helicóptero das forças especiais da Marinha americana pousou no complexo de Abbotabad e efetuou a operação que resultaria na morte do inimigo número um dos Estados Unidos. Qadir diz que a operação teve uma precisão clínica. "Talvez um diretor de Hollywood tenha dirigido a operação", brinca. "Foi planejado para que fosse uma execução e foi uma execução", acrescenta o militar, que ainda afirma que nenhum tiro foi disparado por quem morava dentro do complexo.
Já era 2 de maio (ainda dia 1º no Brasil) quando um helicóptero das forças especiais da Marinha americana pousou no complexo de Abbotabad e efetuou a operação que resultaria na morte do inimigo número um dos Estados Unidos. Qadir diz que a operação teve uma precisão clínica. "Talvez um diretor de Hollywood tenha dirigido a operação", brinca. "Foi planejado para que fosse uma execução e foi uma execução", acrescenta o militar, que ainda afirma que nenhum tiro foi disparado por quem morava dentro do complexo.
Sobre a polêmica envolvendo o corpo de Bin Laden, Qadir acredita que ele, de fato, foi jogado ao mar. "Mas as razões foram erradas", ressalta. Ele diz que o medo de uma reação negativa do público americano - semelhante à que aconteceu após o enforcamento do ditador iraquiano Saddam Hussein -, foi a única razão para que os restos do terrorista fossem eliminados. "Eles teriam dito 'É esse o pequeno e enfraquecido ser humano que nós caçamos por uma década? Ele é um moribundo'".
Fonte: Terra.
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