Por Sagran Carvalho.
Se confirmada, a saída para o impasse entre a China e os EUA causado por um dissidente se tornará um exemplo de como superar diferenças – sem precisar fazer elogios a uma ditadura
Se confirmada, a saída para o impasse entre a China e os EUA causado por um dissidente se tornará um exemplo de como superar diferenças – sem precisar fazer elogios a uma ditadura
TATIANA GIANINI
Na sexta-feira 27, quando se espalhou a notícia de que Chen Guangcheng, um dissidente chinês cego de 40 anos, fugira de sua casa na província de Shandong, onde foi mantido em prisão domiciliar nos últimos dezenove meses, as redes sociais do país ficaram repletas de frases de apoio ao militante dos direitos humanos. Machucado como consequência da escapada espetacular, que incluiu vinte horas vagando sozinho até encontrar um amigo que o levou a Pequim, Chen foi acolhido pela Embaixada dos Estados Unidos. Sem pedir asilo político, queria apenas ficar em um lugar onde ele e sua família não sofressem constantes agressões dos capangas do regime, como ocorria em sua casa. Sua nobre súplica, porém, envolvia questões políticas mais complexas. Ao admitirem o dissidente na embaixada, os diplomatas americanos interferiram num assunto delicado para o governo chinês, o da repressão aos dissidentes do regime de partido único. O impasse com o seu segundo maior parceiro comercial não era nada conveniente para os Estados Unidos. Por isso, os funcionários da embaixada se apressaram em negociar a entrega de Chen às autoridades locais, o que ocorreu na quarta-feira passada, mediante a promessa de que ele seria levado a um lugar seguro. No dia seguinte, quando a relação dos americanos com o caso parecia limitada a acompanhar as garantias dadas por Pequim, Chen voltou atrás e pediu para deixar a China no avião da secretária de Estado americana, Hillary Clinton, em visita oficial ao país. Isso reabriu as conversas entre chineses e americanos. Na sexta-feira passada, o caso parecia ter encontrado um rumo satisfatório quando Hillary endossou um comunicado chinês que autorizava Chen a estudar em uma universidade americana. Os documentos de viagem devem ser concedidos em breve.
O episódio tinha potencial para se tornar uma crise grave de diplomacia para o governo americano em um ano eleitoral. Seu provável desfecho, porém, acabou sendo vantajoso para todos, por não violar o corolário da política externa entre os dois países moldado por Henry Kissinger, o secretário de Estado responsável por reaproximar os Estados Unidos da China nos anos 70. A regra de ouro diz que a diplomacia deve passar por cima de diferenças políticas para preservar o que há de bom nas relações bilaterais, sem que os americanos comprometam seus valores e sem que os chineses abram mão de seu sistema político. O governo americano transferiu a responsabilidade sobre Chen para a China sem que isso representasse uma afronta às liberdades civis, tão caras ao espírito americano. Afinal, se for mantido o combinado, o dissidente sairá do país com sua família, sem que isso configure um exílio permanente. Para o regime chinês, permitir a viagem de Chen deve diminuir sua visibilidade na China e a consequente exposição internacional da repressão a dissidentes. Em nenhum momento do episódio Hillary Clinton precisou endossar a ditadura chinesa, o que não a impediu de seguir com as negociações comerciais e estratégicas previstas na visita. A solução do impasse causado por Chen, é óbvio, não livra da repressão outros críticos do governo chinês. Alguns dos amigos que o ajudaram a fugir foram colocados na cadeia, outros estão em prisão domiciliar. Mas, se o que foi acertado na semana passada se mantiver, o episódio será lembrado como um exemplo de como a diplomacia pode superar divergências políticas entre países.
O episódio tinha potencial para se tornar uma crise grave de diplomacia para o governo americano em um ano eleitoral. Seu provável desfecho, porém, acabou sendo vantajoso para todos, por não violar o corolário da política externa entre os dois países moldado por Henry Kissinger, o secretário de Estado responsável por reaproximar os Estados Unidos da China nos anos 70. A regra de ouro diz que a diplomacia deve passar por cima de diferenças políticas para preservar o que há de bom nas relações bilaterais, sem que os americanos comprometam seus valores e sem que os chineses abram mão de seu sistema político. O governo americano transferiu a responsabilidade sobre Chen para a China sem que isso representasse uma afronta às liberdades civis, tão caras ao espírito americano. Afinal, se for mantido o combinado, o dissidente sairá do país com sua família, sem que isso configure um exílio permanente. Para o regime chinês, permitir a viagem de Chen deve diminuir sua visibilidade na China e a consequente exposição internacional da repressão a dissidentes. Em nenhum momento do episódio Hillary Clinton precisou endossar a ditadura chinesa, o que não a impediu de seguir com as negociações comerciais e estratégicas previstas na visita. A solução do impasse causado por Chen, é óbvio, não livra da repressão outros críticos do governo chinês. Alguns dos amigos que o ajudaram a fugir foram colocados na cadeia, outros estão em prisão domiciliar. Mas, se o que foi acertado na semana passada se mantiver, o episódio será lembrado como um exemplo de como a diplomacia pode superar divergências políticas entre países.
Fonte: Veja.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Dê sua opinião!